sábado, 7 de enero de 2012

Coleccao CINEMA - 1962 - Portugal


Novelizacao de Mário Costa
Javier era um joven de excelente familia, mas cuja juventude e amor pela boémia nao favoreciam em nada as ambicoes de carácter político que os seus familiares alimentavam a seu respeito, baseadas aliás no facto de, a pesar da sua pouca idade ser já secretário de um dos membros do ministério.
Nessa, noite, Javier, que havia algum tempo recolhera aos seus aposentos, descia, pouco depois, as escadas, pé ante pé, supondo que sua mae nao daría pela sua escapada.
No vestíbulo, o mordomo, muito aprumado, entregou-lhe a capa e o chapéu e, muito cerimonioso disse:
-Boa noite, senhor. Divirtase!
-Farei o possivel!
Javier agradeceu, muito baixinho e continuou, pé ante pé, agora pelo vestíbulo, em direccao à porta da rua.
Porém, a sua tentativa para sair sem ser pressentido nao teve éxito, porquanto depois de ultrapasar a porta da biblioteca esta abriu-se e uma senhora idosa, aparecendo, interpelou o iovem, num tom de voz que pretendía ser severo:
-Vais sair sem te despedires de mim?
Javier deteve-se. Sorriu um tanto embaracado, mas logo, recompondo-se, replicou:
-Nao quería interromper as tuas oracoes…
A senhora sorriu com bondade, mas nao deixou de prevenir que esperava que ele regressasse a hora nao muito tardía.
-Espero que venhas dar-me um beijo, antes de te deitares.
Javier sem perder as estribeiras abeirou-se de sua mae e inclinou-se para ela com imensa ternura.
-Dou-to agora –disse, juntando a accao à palavra- e poderás dormir mais tranquilamente.
E percebendo que a mae se preparava para ihe fazer uma prédica acerca da vida pouco edificante para un político, que ele levava, antecipou-se, afirmando:
-Já sei que o papá nunca saía à noite –e elevando os olhos para um grande retrato do progenitor, que se via pendente de uma das paredes do vestíbulo, continuou: -Só vivía para a sua carreira- esbocou um sorriso e, irreverente, acrescentou: -Mas lembra-te de que ele usava barba…
E Javier encaminhou-se, finalmente para a porta da rua. Lá fora, os seus amigos aguardavam-no, para comecarem uma das suas habituais rondas de bohemia.

*
Os amigos de Javier levaramno a um café-cantante, onde actuava uma artista de rara formosura e talento bastante grande que cantava de modo muito pessoal e de maneira inédita, dando marcada intencao a cada uma das frases que cantava.



Rapazes, alegres, com a irreverencia própria dos seus poucos anos, Javier e os amigos provocaram um certo barulho, talvez intencionalmente, para se tornarem notados pela bela Lola.
Esta, porém, fitou-os e, do palco, gritou para um dos criados do café:
-Um barril!... A ver se eles se calam…
Outros que fossem, os rapazes nao deixariam de ficar embaracados coma quela frase da artista, que chamara sobre eles as atencoes gerais, mas Javier e os que o acompanhavam nao se impressionavam com semelhantes ninharias.
Javier comecou a sentir-se interesado pela artista que, entretanto saíra do palco, dirigindo-se para o seu camarim, onde uma sua amiga a esperava para lhe dizer que se encontravam, como de costumbre, na sala, dois jovens tenentes que lhes faziam a corte.
Porque, había algum tempo, Lola aceitara a corte de um homem nao muito joven já, mas de posicao, que a cumulava de gentilezas e lhe der ajá inúmeras provas do seu afecto por ela, respondeu para a sua companheira de trabalho, à guisa de desculpa:
-Os militares só comecam a ter interesse, depois de ascenderem a generais –depois, com sinceridade e em tom sério, acrescentou: -Além disso, esta noite…
Deteve-se, pois acabava de ver chegar o seu pretendente que, como todas as noites, foi ocupar uma mesa discreta junto do palco. Entao dirigiu-se-lhe e sentou-se perto dele, depois de haver desdenhado um belo cravo que Javier, galantemente lhe atirara.
Após cumprimentar o seu fiel e devoto admirador, a artista disse, prendendo entre as suas as maos do cavalheiro:
-Sabes que dia é hoje, Gabriel? –e sem dar tempo a que o cavalheiro replicasse, acrescentou: -Faz hoje um ano que nos conhocemos.
Gabriel sorriu, e pondo sobre a mesa um belo estojo de veludo negro, em cujo interior brilhava uma preciosa jóia, replicou:
-Compreendo agora porque te trouxe isto…
Os olhos de Lola brilharam deslumbrados e nao pode deixar de dar largas ao seu orgulho, comentando:
-Po-lo-ei amanha, no Casino. Quero deslumbrar esas damas presumidas.
O admirador de bela Lola nao pode deixar de sorrir, ao mesmo tempo que comentava:
-Hás-de ser sempre a mesma.
Espectadores de toda aquela cena, os amigos de António nao se coibiram de o trocar pelo facto de a bela Lola nao lhe ligar a menor importancia, preterindo-o, a ele que tinha fama de grande D. Juan, por un homem bastante mais idoso.
Desdenhoso, Javier volveu:
-A rapariga demonstra o maior respeito pelos anciaos… Além disso… -acrescentou, irónico: -Troca um cravo por um colar…



Os amigos, porém, opuseram varios comentarios que despertaram o brio de Javier.
-Eu creio que mordeste um osso- opôs, intencionalmente, um dos amigos, querendo significar que o amigo teria certas dificultades para conseguir que Lola lhe dispensasse qualquer atencao.
Javier, dando-se ares de grande senhor, mas sem mostrar grande interesse naquele caso, vangloriou-se:
-Garanto-lhes que será uma questao de días…
E como amigos nao aceitassem aquela fanfarronada, Javier propos uma aposta: se ele conseguisse fazer com que Lola aceitasse a sua corte, os amigos pagar-lhe-iam uma ceia. Caso contrario, seria ele a pagar a ceia aos amigos.
A sua proposta foi acolhida com grandes manifestacoes de regozijo por parte dos amigos um dos quais comentou:
-Bravo, Javier!... Comeremos à tua custa!
Entretanto, alheia ao que se passava, Lola despedia-se de Gabriel, o seu fiel admirador, retirando-se, de novo para o seu camarim.
Disposto a comencar, sem perda de tempo, o assédio à joven e bela mulher, Javier, rápidamente, entornou um pouco de vino tinto num guardanapo e sorrindo confidenciou para um dos seus companheiros:
-Ocorre-me um velho truque… mas tens de ajudar-me.
O outro assentiu e nao tardou que, na rua, sob a janela do camarim de Lola soasse uma gritaría e um certo alvoroco, do qua lela apenas pôde entender uma orden gritada por uma voz forte:
-Detenham-no! Nao o deixem fugir!
Alguns segundos depois, alguém batia nos vidros da janela, sobresaltando-a. Nao tardou, porém a acalmar-se indo ver de que se trataba.
Agarrado ao respectivo parapeito, estaba Javier, cabelo em desalinho, voz entrecortada:
-Nao me pergunte nada…- e mostrando o guardanapo tinto de vino acrescentou: -Estou ferido…
Fez um longo silêncio que a rapariga respeitou, ajudando-o a penetrar no seu camarim, e depois puxando por un maco de papéis entregou-lhos, pedindo:
-Guarde estes documentos… Comprometem-me…
Nesse momento, soaram na porta do camarim, fortes pancadas que sobressaltaram a artista e o seu visitante.
-Esconda-se ali, depressa!-  ordenou ela, apontando o biombo atrás do qual costumava mudar de trajos.
Foi nesse preciso instante que Lola se deu conta de que aquela mancha vermelha da camisa de Javier era provocada nao por sangue, como a principio pensara, mas sim e simplesmente por vino tinto.
Compreendeu de seguida aquilo que se passava, mas nao acusou o toque, prestando-se, antes pelo contrario, ao jogo iniciado por o joven político.
Logo que o rapaz se encontrou escondido, Lola foi abrir a porta, dando de caras com um dos companheiros do próprio Javier que se apresentou como sendo inspector da Polícia.
-Entrou aqui un homem ferido? –e perante o seu gesto negativo: -Suponho que você procura escondê-lo.
Pondo u mar extremamente ingénuo a artista interroguo:
-Acha que tenho cara de manter amizade com revolucionários? –e acrescentou: -Chamo-me Isabel… como a rainha. Os homens que se escondem nao me interessam.
-Tenho de pasar uma busca –deliberou o amigo de Javier, trocando uma piscadela de olho com aquele, a quem descobrira imediatamente.
Depois, o falso inspector de Polícia voltou para junto de Lola e concluiu:
-Efectivamente, aquí nao está ninguém.
E caminhou para a porta, ao mesmo tempo que recomendava à artista que se soubesse alguma coisa acerca do ferido lho comunicasse.
-Comunicar-lho-ei imediatamente, inspector Lopez –prometeu a rapariga, mal podendo conter o riso.
Ao fechar a porta sobre o falso inspector, a rapariga voltou ao interior do camarim e após ter dado a Javier um lenco lavado, para comprimir a ferida, exortou-o a sair pela janela por onde entrara e a entrar numa carruagem que estacionava perto. Era questao de esperar alguns segundos e ela se lhe juntaría e o conduziria à sua própria casa, onde o escondería.
-Nao posso consentir que o descubram… -explicou.
Convencido de que o primeiro grande passo estaba dado, Javier inclínou-se para beijar a mao da bela cantora, mostrando-lhe toda a sua gratidao:
-Como tem bom coracao… -afirmou. –Mil vezes obrigado!...
Sem se denunciar, a bela e elegante Lola volveu-lhe:
-Vá e que ninguém o veía! –e logo, em tom um tanto aflito: -O que nao me agrada é guardar esses papéis explosivos…
Galante, Javier tirou-lhe os papéis das maos. Ele os guardaría, já que eran documentos de capital importancia, pois continham os nomes dos conjurados.



Porque as cortinas do trem se encontravam totalmente corridas, Javier nao pôde ver o camino que seguiam, do mesmo modo que nao pôde aperceber-se de que a carruagem parara diante de uma esquadra policial. Entao, Lola recomendou-lhe que nao corresse as cortinas nem se assomasse à janela, enquanto ela ia ver se o camino se encontraba livre.
Sorrindo de modo superior, ao ficar sòzinho, Javier pensaba já que a rapariga se encontraba perdidamente apaixonada por ele e nao tardaría a declarar-lho. Por isso, quando sentiu que a porta se abria, nao imaginou, nem por um segundo, que pudesse ser alguém diferente de Lola. Com os olhos semicerrados, interregou, dando um tom melífluo à voz:
-Ês tu, meu amor?
O policía que abrirá a portinhola do trem, respondeu, em tom trocista:
-Sim, coracao. Vamos!
O acento masculino alertou o joven político que perguntou, do alto da sua importancia:
-Isso é conmigo?
-Nao, é com o cavalo –replicou o agente de autoridade, arrancando Javier do interior da carruagem, sem grande meiguice.
Nesse momento, Lola recomendava ao comissário que assustasse um pouco o rapaz, para ver se ele tomava juízo.
Vendo um joven de bom aspecto e bem trajado, o chefe da esquadra nao se eximiu a comentar:
-Cada vez se vestem melhor estes vadios –e a um dos seus subordinados ordenou: -Revista-o!
Dando às suas palabras um tom zombeteiro, Lola incitou o agente da autoridade a revistar a carteira do preso.
-Obrigado, Madrinha da Liberdade –agradeceu o jovem secretário do ministro, ao verificar, surpreendido, que ha carteira se encontraba uma valiosa jóia.
Tomando aquelas palabras como uma insolencia contra Lola, o comissário da Polícia deu orden para que o vadio –como chamava a Javier- fosse encerrado no calabouco, onde deveria passar a noite.
O rapaz obedeceu prontamente. De resto era una experiencia nova que desejava ter.
E foi assim que Javier passou uma noite na cadeia, em companhia de varios meliantes com quem acamaradou sem quaisquer peias.
Na manha seguinte, ainda muito cedo, o guarda veio buscálo para o soltar e o comissário de Polícia, inteirado já da sua identidade verdadeira, desfez-se em desculpas por o haver feito passar aquela noite na enxovia.
-Muito bem –volveu Javier.
-Isto nao é muito distinto, mas é limpo e confortável.
Todo mesuras, o comissário policial, já no seu gabinete, para onde conduzira o expreso, acrescentou:
-Cometi um lamentável erro… Peco-lhe que me desculpe ao senhor ministro…

*

Pouco depois, Javier encontrava-se na presenca do ministro que, armado do seu ar mais grave, reprovava vehementemente, o procedimento do seu joven e irreflectido secretário.
-Todo o homen que aspira a um cargo público- dizia ele- nao lhe basta ser honorável. Tem de o parecer –e após uma breve pausa: -Nao se pode apregoar moral e passar as noites na prisao… Nem se pode andar pelos botequins, em noitadas.
Durante um certo tempo, o ministro guardou silencio. Depois voltou a falar, agora um pouco mais brando:
-Só o respeito que tenho por tua mae e a amizade que me ligou a teu pai me impedem de adoptar medidas extremas.
Javier assentiu com uma inclinacao:
-Obrigado, Excelência- disse.
Irritado ainda com a atitude do joven, o ministro mais o ficou por ele o tratar por excelencia, naquele instante em que se encontravam sós.
-E nao me trates por excelencia quando estamos sós- repreendeu-o.
Javier assentiu, de novo, e pouco depois retirava-se para retomar as suas funcoes, deixando o seu chefe e velho amigo de familia, sinceramente preocupado com as suas leviandades.

*



Quando, na companhia do seu fiel admirador, D. Gabriel, Lola entrou em sua casa, esta estaba profusamente juncada de flores.
-Parece-me que os teus admiradores sao cada vez mais atrevidos- e apontando todas aquelas flores: -Nao me lembro de ter mandado estas flores…
Embora a sua intiucao feminina lhe gritasse que aquilo tudo nao podía deixar de ser obra de Javier, a verdade é que Lola fingiu ignorar completamente quem pudesse ser o galanteador que lhe ofertava todas aquelas flores.
Gabriel colheu um cartao que se via preso num imponente ramo de rosas vermelhas e leu-o. Era um agradecimento de Javier pela noite que passara na prisao. Mas dizia-o de modo a poder ser erróneamente interpretado.
-Nao me digas que tens ciúmes- comentou Lola que tinha, assim, uma prova mais de quanto era sincera e firme a ternura que Gabriel lhe votava.
Mas havia que ensaiar, pois a sua estreia no Casino, uma elegantíssima sala, onde apenas entrava pela mao do seu apaixonado, que lhe conseguirá aquele contrato, era nessa mesma noite.
-Vamos, toca a trabalhar! –incitou-a D. Gabriel. –Acima de tudo a Arte.
Como havia já um ano que privavam bastante, Lola percebeu que o seu apaixonado, ao dizer aquelas palabras nao conseguira esconder uma pontinha de selilusao.
-Receias que obtenha éxito? –interrogou Lola, sem poder esconder uma certa dose de ternura.
-Sim… -admitiu Gabriel. –Mas já sabes que me tens sempre a teu lado.
Lola sorriu-lhe e, amorosamente, tomou-lhe as maos:
-Ês o melhor homem que já conheci.

*

Rodeado pelos seus amigos, os mesmos que o haviam acompanhado ao botequim onde conhecera Lola, Javier encontrava-se sentado numa mesa “estratégica” no Casino, disposto a, com a cumplicidade dos amigos, fazer fracasar, de modo rotundo, aquela primeira apresentacao de Lola num ambiente tao requintado como era o Casino.
-Nao tarda que tenhamos a bela Lola em cena- disse um dos amigos de Javier.
-A vinganca é o prazer dos deuses- monologou Javier.
Os outros sorriram. E um deles perguntou:
-Sim, mas quem nos tira do Comissariado?
Um outro, aludinho ao caso da prisao do amigo, apinou, zombeteiro:
-Javier e o comissário sao como irmaos.
Pouco depois e com o medo inherente à estreia, Lola pisou o palco do Casino, sentindo um imenso aperto no coracao.
Depois, quando, ainda dos bastidores viu Javier e os seus amigos, falando e rindo ruidosamente, a bela canconetista teve o pressentimento de que algo se iria passar.
-Aqueles sao capazes de qualquer coisa- tartamudeou a joven aflita.
Mas a orquestra rompeu com o primeiro número e ela comecou a cantar.
Imediatamente Javier e os amigos comecaram a vaiá-la:
-Vamos, Lola –gritaram- reporta-te ao teu género, como no café!
A barulheira era tal que Lola nao teve outro remédio senao calar-se por uns momentos. Depois, empertigando a sua bela figura de busto bem marcado, e empunhando o microfone anunciou:
-Pedem-me alguns espectadores que cante uma cancao do meu antigo reportório- fe zuma pequeña pausa e sorrindo gaiatamente, acrescentou: -Nao vejo inconveniente… e se os senhores estao de acordó…



E Lola cantou nao uma mas varias das suas antigas cancoes que tao bem sabia interpretar, dando-lhes um sabor picaresco e intencional, que lhe valeram alcancar um éxito verdadeiramente estrondoso.
Quando Lola passou junto da mesa em que se encontrava Javier, acompanhado pelos seus amigos, o jovem político levantou-se e segurou-a por um braco.
-Foi uma honra dedicar-nos a sua cancao.
Lola fitou-o com azedume. Mas, na realidade, comecava a admirar a pertinacia com que o rapaz a seguía, impondo-lhe a sua presenca por toda a parte. No entanto, foi com altivez que Lola opôs:
-Admito que se tenham divertido, mas a culpa de tudo foi sua – acusou.
Javier continuando a segurar-lhe o pulso, voltuo à carga, afirmando que se obtivera aquele éxito tao grande, a ele o devia.
Encarando-o, agora mais furiosa, a artista assentou-lhe, no rosto, uma tremenda bofetada que o forcou a largá-la.
-Agradeco-lhe de toda a mina alma – opôs Javier, muito sério, acrescentando, de seguida:
-Além disso, nao se pode negar que tem temperamento.
Logo que se viu livre, Lola retirou-se do salao, dirigindo-se ao seu camarim.
Quanto a Javier voltou a sentar-se junto dos amigos. Um deles, justamente aquele que no primeiro encontró do joven político com Lola, desempenhara o papel de inspector de Polícia, comentou:
-Fizese mal os cálculos…
Com esta nao te bastam dois días… Em menos te manda ela para o hospital. E ao afirmálo sorriu, pensando na tremenda bofetada que Javier apanhara nao havia muito tempo.
Um outro, pegando na palabra do amigo, encarou Javier e, trocista, perguntou-lhe se nao quería que eles prorrogassem o prazo de aposta, visto que aquele expiraría dentro de uma hora.
Calmo, muito senhor de si, o jovem respondeu:
-Nao se preocupem… Creio que nao me vai faltar tempo…
-Mas vai sobrar-te cara- afirmou trocista Lopez, o que representara o papel de inspector policial.
Entretanto, Gabriel, que ficara em Madrid para asistir à estreia de Lola no Casino, adiando uma viagem urgente, partira e a artista conseguira, com o pretexto de se encontrar muito cansada, furtar-se a receber as homenagens dos numerosos admiradores que pretendiam, a todo o transe, conhecer tao bela como categorizada artista.
Mas se julgava que podía ficar tranquila, Lola enganava-se completamente pois que, ao acabar de fechar sobre si a porta do camarim, foi surpreendida pela presenca de Javier que, zonbeteiro, lhe afirmou que fora condenado a passar ali a noite, em virtude de ter roubado um colar, como ela deveria estar perfeitamente lembrada.
E ao dizer aquilo, Javier quería referir-se ao colar que Gabriel ofertara a Lola e que esta havia metido na sua carteira, antes de o fazer prender…
-Se nao sai daqui, grito- amenacou a artista.
O joven político desdenhou da ameaca e, calma e vagarosamente aproxímou-se-lhe. A sorrir, descaradamente, atirou-lhe:
-Morreria de vergonha. Pensa no escándalo, na mina reputacao.
E chegando perto de Lola, Javier atraiu-a a si. Vencida, a jovem cantora encostou a cabeca ao peito masculino.
Sim, Lola deixara-se vencer. Estava apaixonada. Aquele joven irrequieto e atrevido conseguira que ela lhe ofertasse o seu coracao.

*



Quando Lola chegou, finalmente, a casa, Gabriel esperava-a. Estava carrancudo. Porém nada lhe disse. Limitou-se a apontar-lhe uns papéis que estavam sobre a mesa, diante dele a explicou:
-Aquí tens o teu contrato de Sevilha. Vê se as condicoes te agradam – entao, sim, sorriu com tristeza e em tom magoado, adiantou: -Talvez agora nao desejes sair de Madrid…
Procurando ser natural, a artista afirmou que nao havia razao para nao ir. Esperara tanto tempo por aquele contrato, porque nao haveria de aceitá-lo? Depois aproximando-se do seu fiel e leal pretendente, a rapariga perguntou-lhe se a esperava havia muito.
Gabriel era um cavalheiro e o afecto que sentía por aquela mulher, muitíssimo mais joven do que ele, era sincero e bem intencionado. Foi, por isso que replicou com amargura, mas com fignidade:
-Nao me parece que isso agora tenha muita importancia…
Nao eran necessárias explicacoes. De resto, Gabriel entendeu que fazer perguntas ou recriminacoes a Lola, apenas podía provocar entre eles um abismo intrasponível. E ele quería guardar sempre daquela a quem oferecera um amor verdadeiro, uma boa recordacao.
-Nao tencionas vir comigo? –perguntou Lola que continuaba a ter profunda gratidao por Gabriel que tanto e tao desinteresadamente a ajudara.
Com o mesmo sorriso triste, o interpelado volveu:
-A única coisa que posso fazer é esperar-te… se é que voltas- acrescentou.

*

Tal como em Madrid, Lola triunfou em Sevilha com extrema facilidade, e de tal modo que toda a cidade se pôs a seus pés.
Estava Lola, muito aborrecida, após um espectáculo, escutando as brilhantes oracoes de um joven tenente que apenas sabia falar de tropa e de estratégia militar quando uma velha cigana se empenhou em ler-lhe a sina.
Afastaram-se para um recanto mais tranquilo.
-Bem, comece de uma vez! –conviduou Lola um tanto agastada já. –Que vê na mina mao? Previno-a de que nao acredito em bruxarias.
A velha cigana pegou-lhe na mao e debrucou-se sobre ela, estudando as suas linhas.
-Vejo uma corrente de ouro e outra de fogo- comecou.- Vejo um espelho quebrado. Muitos homens te admirarm… mas só um conta…
A artista interrompeu-a. Já conhecia o seu próprio pasado. Nao necessitava que lho repetissem.
-Posso adivinar-te o futuro – prometeu a velha- se te atreveres a ouvi-lo…
-A única coisa que me mete medo –afirmou com desenvoltura – é a fome… e nao me parece que volte a experimentá-la.
Entao, indocando-lhe umas velhas escadas que conduziam ao andar de cima, a cigana exortou-a:
-Sobe por esas escadas… Verás três portas. Entra na segunda, aproxímate da janela e contempla o poente… Tu própria verás o teu destino.
Deixando-se dominar por uma estranha sensacao, Lola perguntou à velha se a nao acompanhava.
Aquela meneou a cabeca em sinal de negacao.
-O destino é teu e nao meu –afirmou. –Espero-te aquí.
Lola, possuída por um estranho sortilegio, subiu as escadas vagarosamente. Depois, a medo entro una segunda porta.
Dava para uma sala onde se encontrava um piano, em cima de cujo tampo ardia uma vela que iluminava escasamente o aposento.
Ao encontrar-se dentro da sala, Lola olhou à sua volta. Um misto de medo e de curiosidade dominava todo o seu ser. Após uma breve hesitacao e relembrando as palabras da cigana, caminhou em direccao à janela, a cuja vidraca encostou a testa, prescrutando o exterior.
De súbito, atrás de si, soou uma voz infonfundível.
-Chegas a tempo de tomar uma bebida comigo.
O coracao de Lola quase lhe saltou do peito. Vagarosamente voltou-se.
Sim, na sua frente, sorridente, estaba Javier.
-Sou o teu destino –rematou o rapaz.
A artista sorriu. Tudo esqueceu. O seu amor estava alí, bem perto. Contudo, fingiu-se um tanto agastada por todo aquele “mise-en-céne”.
-Chamo a tua amiga bruxa, ou brindamos a sós? –interrogou trocista. E depois de o seu interlocutor afirmar que as bruxas nao bebiam vino, fez nova pregunta: -Vieste aquí para adivinar o meu futuro, em colaboracao?
Depois de abracar ternamente a sua paixonada, Javier explicou-se:
-Estou de passagem… numa viagem de inspeccao. Mas ouvite cantar da rua… e nao podía perder a oportunidade de admirar a Bela Lola – e com marcada admiracao: -Ês o maior acontecimento do país.
Lola sorriu de felicidade.
-Nunca serás um bom político –ralhou. –Podias dizer que vinhas procurar-me…
Javier censurou-a, por seu turno, por apenas se haver despedido dele por meio de um simples bilhete e sem sequer o informar do local para aonde se dirigía.
-Tmbém nao foste muito diplomática – terminou.
Lola lembrou-se entao dos que tinham ficado à sua espera: dois oficiais e a sua companheira.
-Aos de lá de baixo nem sequer deixei um bilhete. Devem procurar-me… -sorriu.

*



Lola e Javier deixaram tudo, esqueceram tudo para apenas pensarem no seu amor, na sua felicidade. Retiraram-se para uma aldeia piscatória, à beira da Praia, onde faziam longas caminhadas, corriam, ou ficavam sentados na areia, falando de amor.
Naquela manha, além de alguns jornais havia uma carta para Lola. Esta autorizou o seu companheiro a que a lesse.
Era do teatro, lembrando-a de que daí a poucos días deveria regresar já que estava a terminar o período de férias que solicitara.
-Rasga-a! –ordenou a jovem.
Depois, ambos se embrenharam na leitura de um jornal, onde aparecia uma entrevista com Lola, que lhes serviu para se divertirem um pouco, como se divertiram pouco depois quando iam para comer a refeicao feita por Lola que era, ela própria o dizia, uma verdadeira calamidade como cozinheira.

*

Entretanto, em Madrid, a mae de Javier, preocupada nao só com o seu silêncio, como com a sua ausencia mais prolongada –do que era de admitir, fora procurar o ministro, chefe de Javier.
-Quando regresar –prometeu o ministro –prego-lhe uma boa reprimenda, mas nao me parece que devas preocupar-te, Beatriz.
-Sim, mas essa mulher de que me falaste… -opôs a dama, -a Bela Lola…
O ministro titubeou:
-Bem, eu nada sei. Sao suposicoes… O facto de se encontrarem os dois em Sevilha é que me faz suspeitar.
A mae queixou-se por Javier nem sequer lhe haver escrito e o amigo de familia replicou que também ele, quando tinha a idade do seu secretário, conhecera em Granada uma trapezista de circo…

*

Javier continuaba em Sevilha, mas Lola ia recomecar a trabalhar o que era um autêntico suplicio para o rapaz, pois nao podía suportar que uma corte de admiradores pululasse à volta da mulher que era toda a sua vida.
-Quando venho procurar-te ao teatro, tenho a impressao… - comencou, ao entrar, naquela noite no camarim da sua amada. –Bem, tu és a Bela Lola e estás em pleno éxito, nao há que esquecê-lo – e tristemente: -Aquí pertences um pouco a todos…
Depois, sempre em tom onde nao conseguía disfarcar completamente uma certa amargura, Javier afirmou que nao podía, de modo algum, censurar que ela quisesse continuar a sua carreira, já que lhe custara imenso chegar àquela posicao, o que certamente só fizera à custa de varios sacrificios. E Javier concluiu:
-Nao pensemos mais nisto… Nao quero ver-te triste…
Quando Javier acabou de pronunciar aquelas palavras, entrou no camarim de Lola o empresario que lhe estendeu uma folha de papel.
-Esteve maravilhosa! –cumprimentou. –Aquí está o novo contrato. Isto assinala o principio do verdadeiro triunfo de Bela Lola – e o homem, entusiasmado, continuou: -Na próxima temporada iniciaremos uma “tournée” por toda Espanha. Quero que o nome da Bela Lola seja famoso no mundo inteiro.
A cantora rasgou o contrato em pedacinhos e olhando, bem de frente, o empresário, afirmou que a Bela Lola deixara de existir.
-Nunca se ofereceu um contrato tao elevado a uma cantora – lamentou o empresário Vega que se voltou para Javier e lhe pediu: -Convenca-a, senhor! Diga qualquer coisa!
E como visse que nao podía encontrar no joven o aliado de que necessitava, Vega proclamou:
-Um dia terá a consciencia da oportunidade que perdeu ao recusar o meu contrato!
Desalentado e furioso, o empresário retirou-se, deixando os dois apaixonados frente a frente.
Na face de Lola lia-se uma grande determinacao. Pelo seu amor, acabava de abdicar de uma carreira que poderia levá-la às culminâncias da fama e da popularidade.
-Nao era isto que querías? –interroguou meigamente.
Javier assentiu com um movimiento de cabeca. Depois, caminhou para junto de Lola, tomou-lhe as maos, amorosamente, entre as suas e confessou-lhe:
-Sim, mas nao me basta… Quero-te para sempre, sem ter de fugir nem esconder-me de ninguém. Quero que regressemos a Madrid e que todos saibam que quero casar contigo.
Louca de alegría, Lola nao pôde suster as lágrimas que aquelas afirmacoes de Javier lhe causavam.
Vendo-a chorar, o joven político sorriu-lhe com ternura e, ciciou-lhe junto ao ouvido:
-No teu caso, também choraría. Ter de suportar-me toda a vida é caso para assustar qualquer…

*

Quando Javier apareceu enquadrado nos batentes da porta do seu solar, depois de uma longa ausencia, o mordomo saudou-o efusivamente, dando-lhe as boasvindas.
-Minha mae está em casa? –quis ele saber.
O criado apontou-lhe a biblioteca onde Javier se apressou a entrar.
Galantemente, o joven beijou a mao de sua mae e depois, com um sorriso, grabou-a:
-Cada dia, estás mais bonita.
-Mereces um bom puxao de orelhas –repreendeu-o a mae, meigamente, convencida de que tudo passara já e voltara à normalidade.
Javier, porém, estava disposto a contar tudo a sua mae e, mais do que isso, a dar-lhe parte da sua decisao de casar com Lola. Por isso, falou-lhe branda, mas ao mesmo tempo, firmemente:
-Talvez nao te conformes apenas com um… Mas deixa-me que te conte tudo –e vendo que a mae ia falar, atalhou: -Nao comeces a ralhar antes de tempo.
Ainda possuída do convencimento de que Javier, se regressara era porque tinha dado por findo o seu romance con a artista a quem chamavam a Bela Lola, a aristocrática senhora, sorriu, disposta a ser benevolente.
-Fizeste alguma das tuas, nao?
Javier nao perdeu tempo com mais evasivas. Sentou-se junto de sua mae, que lhe serviu uma chávena de chá e contou-lhe, pormenorizadamente, toda a sua paixao por Lola, participandolhe, finalmente, a sua resolucao de, a despeito de todas as oposichoes que pudessem surgir, desposar a cantora.
Quando o rapaz se calou, depois de haver falado durante uns bons minutos, sua mae para a qual as suas confidencias haviam sido o ruir das esperancas que alimentara, tensa, distante, inquiriu, simplesmente:
-Queres outra xícara de chá?
Javier encarou-a, admirado, e nao pôde deixar de perguntar, em tom dúbio.
-Ê tudo o que tens para me dizer?
Dura, a mae interrogou com certa dose de cinismo:
-Queres que te abrace e te dê os parabéns?
Javier nao respondeu pròpriamente áquela pregunta. Limitouse, isso sim, a reafirmar que a sua decisao estava tomada e nada o faria modificá-la. Era inútil que tentasse convencê-lo.
A mae fe zum gesto de enfado.
-Quando eras pequeño e querias alguma coisa que podía fazer-te mal, desesperavas-te, tinhas uma birra, choravas, mas eu continuaba a negar-ta…
Os semblantes da mae e do filho estavam bastante endurecidos. Por um longo momento, ambos se conservaram calados. Depois foi, de novo, a dama quem retomou a palabra:
-Agora é mais difícil, Javier. Já nao è suma crianca…
-Mas continuo a dar-te desgostos…
Foi o comentario de Javier que logo se recompôs aformando a sua mae que gostaria que ela conhecesse Lola. Se tal se desse, tinha a certeza de que haveria de adorá-la tal como ele a adorava.



Inflexível, a mae opôs:
-Nao tenho que lhe falar… E se quiser vê-la, irei ao casino ouvi-la cantar. Ê quanto me interessa dessa mulher.
Javier esmpertigou-se. Aceitava o desafio de sua mae.
-Livrar-teás desse incómodo –disse. –Esta noite, na Festa de Beneficência, irás conhecê-la.
Fremente de cólera, a mae de Javier avisou:
-Isso é pior que um capricho… Ê uma torpeza! Continuas a ser uma crianca caprichosa- rematou.
Javier, por seu turno, replicou, muito direito, muito frio:
-Talvez tenhas razao. Apenas, desta vez, nao tenciono chorar.
E sem acrescentar nem mais uma palavra, Javier abandonou a biblioteca, recolhendo aos seus aposentos.

*

D. Beatriz, a mae de Javier, contara a alguns dos seus amigos mais íntimos, a conversa que tivera como o filho, nessa mesma tarde, e no decorrer da qual Javier afirmara que comparecería no Baile de Beneficência acompanhado por Lola.
-Nao será capaz de a trazer aquí –comentou, convictamente uma das senhoras do grupo em que se encontrava D. Beatriz.
-Nao conheces o meu filho – opôs aquela.
Entretanto, a enorme multidao que se encontrava nas imediacoes do palacete onde o baile tinha lugar, abriu a boca de espanto, ao ver apear-se de um automóvil, uma mulher de rara beleza e extremanmente elegante, trajando um sumptuosíssimo vestido de noite branco.
-Olha… A rainha Isabel! –comentou um, de boca aberta pelo espanto.
-É a Bela Lola, a cantora –elucidou outro. –Debe estar contratada para esta noite.
Quando o joven par entrou no salao, os olhos dos convidados arregalaram-se de espanto, por verem que, na realidade, Javier se atreverá a levar até alí, aquela artista.
Sim, este caso passava-se em 1850 e, nessa altura, os artistas nao mereciam a consederacao que hoje merecem, sendo todos tidos como gente sem moral e sem categoría.
Uma senhora da sociedade aproximou-se de D. Beatriz, e apontando Javier e Lola comentou:
-Disseram-me uma coisa horrível… Que teu filho ia casar come la. Há gente muito má, nao é verdade?

Lola verificou inicialmente quao hostil lhe era o ambiente e, assim, segreodu para Javier:
-Creio que fizeste mal em trazer-me aquí.
Sorrindo encorajadoramente, Javier opôs:
-Esta gente vai comecar a invejar-me…
Frederico Lopez, o amigo de Javier, que representara o falso inspector da policía, quando do primeiro encontró entre os dois apaixonados, aproximou-se deles nesse mesmo instante, saudando-os calorosamente:
-O melhor par de Madrid!
Muito sério, Javier disse para o amigo recém-chegado:
-Muito breve, poderás beijarlhe a mao – e explicando a Lola. –Frederico será o nosso padrino de casamento.
-Felicito-os de todo o coracao – e Frederico era absolutamente sincero ao proferir aquelas palavras.
Entretanto, algumas senhoras haviam comecado a vender flores aos restantes convidados e Javier, desejoso de fazer saber a todos quanto considerava Lola iagual a todas as outras senhoras, que se encontravam ali, pegou num dos acafates de flores e entregando-o a Lola para que vendesse as flores, disse-lhe:
-Lola, vamos extarir-lhes algum dinheiro.
Embora contrafeita, a cantora acedeu, mas foi um autêntico desastre. Ninguém quería aceitar as flores que a artista pretendía vender, vexando-a, cada vez mais. E houve alguns comentarios pouco agradáveis que lhe chegaram aos ouvidos.
Entao, Lola, veio para o jardín e distribuiu pelos populares que, faces coladas às grades pretendiam ver alguma coisa da grande festa, as flores do seu acafate.

*
Toda vestida de negro, Lola, à hora combinada, batia á porta de casa de Javier, onde fora chamada por D. Beatriz.
Esta recebeu-a na biblioteca, justamente a dependencia onde ouvira da boca de Javier a confissao do seu amor por Lola e o seu desejo de a desposar.
-Obrigada por ter vindo- disse D. Beatriz, sem lhe estender a mao. –Receei que se negasse a visitar-me.
A cantora afirmou a sua conviccao de que Javier nao saberia daquela entrevista e recebeu, da parte de D. Beatriz, um pedido para que dela nao falasse, em caso algum. Depois, embora com certa hesitacao, a mae de Javier foi direita ao assunto daquela entrevista por ela solicitada.
-Calculo que já saiba porque a mandei chamar. Mas nao me julgue mal… Tenho razoes poderosas para…
Calma, digna, firme, Lola interropeu-a.
-Eu também tenho uma razao poderosa, senhora – afirmou. –Amo o seu filho. Espero que nao faca nada para nos separar.
D. Beatriz negou. Nao, ela nada faria porque nada poderia fazer. Era-lhe impossível lutar contra Lola. Javier abandonara uma promisora e brilhante carreira, estava disposto até a perder os amigos, a destruir o seu próprio futuro, tudo por causa de Lola. E D. Beatriz concluiu:
-Pode estar satisfeita com o que conseguiu.
-Entao nao temos o direito de ser felices? –perguntou Lola, abatida, limpando uma lágrima rebelde que dava ainda mais brilho aos seus formosíssimos olhos negros.
-Se Javier casasse – continuou D. Beatriz, impiedosamente –seria um desgracado, e isso tao pouco a faria feliz.
Encarando a sua interlocutora e sustentando com galhardia o seu olhar, a artista perguntou:
-E acha que separando-me dele… o seria?
Por un instante, a dona da casa manteve-se silenciosa. Depois voltou a falar.
Tinha a certeza absoluta que tanto ela própria, como Lola, queriam muito a Javier. Mas ela, a mae, tinha forcosamente de lhe querer mais, porque lhe quería sem egoísmos, pensando apenas na felicidade dele.
-Mas a senhora nao pode pedir-me que lhe queira da mesma maneira –opôs-se Lola.
Acutilante, D. Beatriz replicou, batendo com sublinhada intencao cada uma das sílabas que pronunciava:
-Eu nao peco nada… -afirmou. –Digo-lhe que Javier nunca poderá olvidar o pasado que se atravessará entre os dois, no momento mais inesperado.
D. Beatriz fe zum novo silêncio para depois concluir com maior forca, com mais ênfase:
-Javier sabe perdoar, mas nao esquerer.
-Até hoje acreditei que pudesse consegui-lo –volveu esperancosamente, a cantora.
Implacável, disposta a tudo para conseguir aquilo que supunha seria a felicidade para Javier, D. Beatriz atirou:
-Julga que um homem pode passar a vida tomando a mulher pelo braco para levá-la violentamente de onde quer que esteja? Javier pode ser herói uma vez, mas nao todos os días. Acabará por odiá-la.
E profética, ameacadoramente, D. Beatriz concluiu:
-Se algum dia, chegar a ser sua mulher, recordar-se-á das minhas palavras. Javier quer casar… mas você que fará depois? –e vendo que Lola hesitava: - Vê, como tenho razao?
Como por encanto, desmoronou-se a carapaca de falsa fortaleza de que Lola se revestirá. E as lágrimas correram-lhe pela cara, libremente.
-Sim, eu sei… -admitiu. –Soube-o sempre. Mas a senhora pede-me que renuncie ao único homen que, de verdade, amei.
Sentindo que tinha quase a vitória ao seu dispor, D. Beatriz como que se humanizou um pouco.
-Sei que é muito duro o que lhe estou a pedir, mas nunca se arrependerá de o fazer… se na verdade o ama, faca-o por ele!
Lola fe zum esforco visível para conter as lágrimas e calar o seu coracao sangarante. Depois, súbitamente, serena, concordou:
-Afaste Javier do meu lado –solicitou.
-Procurarei afastá-lo por algum tempo –prometeu D. Beatriz.  –O resto depende de si.
Mas só se deu realmente por satisfeita, quando a joven e formosa Lola lhe prometeu que nao voltaria a ver Javier.

*



Javier pensou que a mudanca que se operara na atitude do ministro, mandando-o chamar de novo ao ministério, para lhe confiar uma importante missao fora de Madrid, era um síntoma de que as coisas tendiam a normalizar-se.
Do mesmo meodo, sua mae estava diferente e isso enchia Javier de júbilo, pois pensaba que também ela comecava a admitir como natural o seu amor para com Lola e a possibilidade de eles se casarem.
No meio de tudo, apenas a rapariga só à custa de grandes esforcos nao se traía, chorando o seu desgosto.
Feliz, Javier dera-lhe parte da sua partida no desempenho de importante missao e despedirase dela no meio dos protestos doseu inquebrantável amor e da esperanca firme de a tornar sua mulher logo que regressasse a Madrid.
Tinham combinado que Lola nao iria despedir-se dele, à estacao, mas isso nao fio ela capaz de cumprir. Já lhe era exigido um esforco demasiado grande, para suportar também aquele.
Quando Javier, prestes a tomar lugar na carruagem que o levaría para a cidade onde o deber o chamava, descortinou contrava junto de uma coluna da “gare”, correu ao seu encontro.
Tomou-lhe as maos entre as suas e, amorosamente, perguntou:
-Porque vieste? Nao ficámos em que as despedidas na estacao sao demasiado tristes?
O apito do comboio veio lembrar-lhes que nao tinham já muito tempo. Entao Javier tirou do seu dedo um anel que quis dar a Lola.
-Toma, era do meu pai… -diesse. –Fica com ele até eu voltar.
Lola porém recusou, justificando:
-Nao debemos antecipar as coisas… Traz má sorte.
Entao, Javier voltou a falar do seu contentamento por o Ministro lhe haver confiado uma missao tao importante, nao só pelo facto em si, mas a especialmente, pelo significado que tinha para ele. E falou, entusiásticamente do casamento que se efectuaría mal se desse o seu regresso a Madrid.
-Minha mae comeca a compreender que se enganou a teu respeito… -e acrescentou: -Isto será como uma espécie de prova… Quando fores mina mulher, nao nos separaremos nunca.
O comboio arrancou. Lentamente, pôs-se em marcha. Javier subiu rápidamente. Lola acompanhou o percurso do comboio em marcha até ao fim da plataforma do casi de embarque.

*

Longe de Madrid, Javier nao deixou de escrever a Lola. Simplesmente, as suas cartas nao obtiveram qualquer resposta.
Javier insistiu, silicitou-lhe, como uma mercê que o informasse do que se passava e que motivara o seu silêncio. Mas tudo em vao.
Entretanto, ao ter conhecimento de que Lola se reinstalara no seu antigo apartamento, Gabriel, fiel à promessa que lhe fizera quando da sua partida para Sevilha, voltou e as relacoes amistosas entre a artista e o seu fiel admirador reataram-se, assim, com simplicidade.
Ignorando quanto se passava, Javier nao conseguira dedicar-se à sua actividade como devia, obcecado pelo mistério que envolvía o silêncio de Lola.
E assim sem poder resistir por mais tempo ao tormento daquela incerteza, Javier viajou para Madrid disposto a aclarar aquele enigma.
Logo que chegou, procurou Frederico, o seu mais devotado amigo, e perguntou-lhe por Lola.
O outro titubeou, mas acabou por convidá-lo a inteirar-se pelos seus próprios olhos.
Nessa noite, Javier e Frederico foram ao casino e o joven diplomata sentiu um tremendo choque ao ver Lola jogando ao lado de Gabriel.
Sem poder suspeitar que a cantora nao fazia mais do que obedecer a uma súplica da própria mae dele, e que para conseguir cumprir o prometido tinha de se aturdir com uma vida de intenso movimiento, Javier nao pode conter-se. Aproximou-se dela que, entretanto tivera o bom senso de procurar um canto mais discreto e interpelou-a pelo facto dela haer voltado a frequentar o local onde actuara como cantora.
Simulando um estado de alma que estava vem longe de sentir, fazendo um apelo a todas as suas forcas para nao se trair, Lola ripostou:
-Que querias que fizesse? Que ficasse encerrada no meu quarto? –e em tom cada vez mais contundente para o seu coracao desiludido, prosseguiu: -Esta é a mina verdadeira vida. Ê inútil que pretendamos enganar-nos.
Ciumento, Javier aludiu ao facto dela ter voltado a aceitar a companhia e a corte de Gabriel, verberando o seu procedimento.
-Preciso de muitas coisas que tu nao podes dar-me- disse, e voltando-lhe as costas, afastouse.
Javier ficou especado no mesmo ponto de sala, durante um bom lapso de tempo.
Custava-lhe a admitir que tudo aquilo era real, que se passara, que nao fora um simples sonho.
Como era possível que Lola houvesse mudado, e de maneira tao radical, durante a sua curta ausencia? Depois, à medida que foi refazendo-se daquele primeiro choque, comecou a admitir como natural aquela atitude, digna de uma boémia cantora de café-concerto. Agora sim, aquilo viera abril-lhe os olhos, demonstrar-lhe que o seu amor por Lola fora tao cego que chegara a ambicionar, como o maior tesouro que lhe fosse dado possuir, desposar Lola. Nao podía agora duvidar mais. Sua mae, essa sim, é que tivera razao, taxando de loucura e capricho as suas ideias que, felizmente, afinal, se nao haviam concretizado.
Entao só teve uma ideia; fugir de Madrid. Pôr entre ele e aquela mulher, por quem estivera disposto a renunciar a tudo, nome, posicao e carreira, a maior distancia possível.
E assim, solicitou de seu Ministro, uma comissao de servico para a provincia.



Sua Excelência satisfez imediatamente a sua pretensao e louvou até o modo como ele reagira.
-Ê bom reconhecer os próprios erros- afirmou. E, a despeito de Javier afirmar que preferiría nao falar daquilo, continuou: -Os homens de verdade, nao sucumbem ante as suas fraquezas.
E Javier, embora com o coracao despedacado, partiu.
Mas Lola nao estava menos desesperada do que Javier, o seu apaixonado, porque além do tremendo esforco que continuaba a fazer, renunciando ao amor do homem que era toda a razao da sua vida, tinha ainda de comportar-se de modo a fazer crer a ese mesmo homem que nao o amava, que se servirá dele apenas como joguete dos seus caprichos, fingindo amá-lo.
Lola enveredou entáo por uma vida de prazeres e festas constantes, que, pouco a pouco, foram abalando, de modo irreparável, a sua resistência física.
E, certo dia,  desmaiou numa festa, ou antes teve um colapso cardíaco que a pôs ás portas da norte.
-Necessita de repouso absoluto –deliberou o médico. –Tem de levar uma vida ordenada.
O facultativo fe uma pausa, consultou, de novo, a sua ficha clínica e avisou:
-Nao quería assustá-la, mas a lesao que tem no coracao, pode ser grave.
Lola, porém, nao fez caso da advertencia do médico e nao tardou a que um outro colapso a deixasse entre a vida e a norte, durante algumas horas, em que, nem sequer recuperou os sentidos. Quando tal se deu, teve plena consciencia de que se encontrava muito mal.
E entao, durante algum tempo, Lola foi forcada a repousar. Mas o dinheiro –a que ela nunca ligara qualquer importancia – comecou a desaparecer e, em breve nao lhe restava nenhum.
Pouco a pouco, foi-se desfazendo de alguns objectos e jóias de valor…
Na aldeia onde se encontrava como secretário da Junta, Javier era o centro constante das atencoes das meninas casadoiras que davam festas em sua honra, procurando, cada uma delas, prendê-lo ao ponto de se tornar sua esposa.
Mas Javier, a despeito de tudo, nao conseguía esquecer Lola. Continuava a amá-la, continuaba a meditar sobre a atitude que tomara para com ele.
Durante esas festas que, por forca das circunstancias tinha de frequentar, nao poucas vezes, o joven político, ficava longos momentos alheio a tudo e todos, olhando o espaco através de qualquer janela, mais ou menos isolada.
De todas as jovens que pululavam à volta de Javier, uma havia que parecía merecer alguma atencao da sua parte: Mulia, a filha do alcaide.
Otra Frederico notou, logo que chegou de visita ao seu amigo, exactamente ese facto. E revelou-lho.
Sempre preocupado com Lola, Javier perguntou-lhe as novidades que havia por Madrid e, como o amigo se nao alongasse nas explicacoes que ele desejava, perguntou de maneira mais incisiva:
-Vais muito ao casino?
O outro pôs-se súbitamente sério.
-Se te referes a Lola – disse – parece-me que as coisas nao lhe têm ido muito bem. Só pensa em divertir-se, beber e jogar. E isso custa dinheiro.
Javier sorriu tristemente.
O amigo interpretando aquele sorriso, continuou:
-Agora está só… e, além disso, dizem que está doente.
Sim, Lola estava muito doente. Valia-lhe Ana, a sua antiga companheira que cuidava dela.
Era Inverno. A neve caía. Na pequeña casa que agora habitava, Lola encontrava-se sòzinha.
Ana saíra, a fim de empenhar um objecto de valor. E, ao chegar, mostrou-se desalentada, porqueanto nao conseguira grande quantia.
Lola sorriu-lhe bondosamente. Durante a sua ausencia, o empresário viera procurá-la e haviam combinado que a artista voltaria nessa mesma noite ao casino.
Ana alamou-se. A temperatura estava demasiado fría e nevava, seria perigoso sair naquela noite.
-Ê Carnaval – opôs Lola, simulando uma alegría que estava longe de sentir. –Vamos sair e divertir-nos!

*

O salao do casino estava cheio como um ovo. O público, interesado, estava ansioso por rever e voltar a ouvir a Bela Lola.
E o momento tao esperado chegou. O empresário, em pessoa, anunciou num tom de voz nao isento de emocao:
-Encontra-se entre nós, depois de uma larga ausencia uma artista que ninguém conseguiu esquecer…
O homen calou-se por um momento abafado pelos aplausos vibrantes do público que saudavam o aparecimento de Lola.
Depois que o público se aquietou um pouco mais, o homem voltou a falar, anunciando que Lola interpretaría “La Paloma”, a sua cancao favorita.
E Lola cantou.
O seu triunfo foi clamoroso, estonteante.
Mas Lola nao se sentía bem. Saiu. Achou-se na rua onde pululavam as máscaras.
Como um autómato, a artista caminhava. Desejava chegar a casa.
Súbiitamente, porém, um gurpo de marcarados rodeou Lola, fazendo uma danca em seu redor.
Fitando aquelas máscaras bailando à sua volta, Lola sentiu-se desfallecer. E pouco depois escorregava até ao solo. Estava desmaiada.

*

Avisado do estado melindrosissimo de saúde de Lola, Javier nao hesitou um segundo. Correu a casa da sua apaixonada.
Quando Ana vi una sua frente Javier, ficou radiante, pois tinha a certeza de que Lola iria ter uma grande alegría que poderia ser a sua salvacao.
-Gracas a Deus que veio – disse Ana, com sinceridade. – Em toda a noite nao fez mais que pronunciar o seu nome.
Ana entrou no quarto de Lola que, ao saber que Javier se encontrava na sala contigua, sentiu-se agitar de emocao. Foi como se uma nova vida lhe entrasse no corpo debilitado. Soergueu-se no leito e quando Ana lhe preguntou o que fazia, pediu à amiga que a aiudasse a arranjar-se. Nao quería que Javier a visse assim.
-Ele veio, Ana –disse com extrema emocao. –Ama-me ainda…
A amiga ajudou-a a pentear-se e a levantar-se e, quase em peso, conduziu-a do leito até um sofá.
-Como estou eu, Ana? –perguntou emocionadissima. E depois de a joven lhe acenar que estava bem, pediu-lhe: -Corre, vai avisá-lo.
Nao tardou a que Javier entrasse no quarto.
Houve que fazer um tremendo esfoco para que o seu rosto nao denotasse a emocao que sentía ao vê-la tao pálida e tao débil.
Aproximou-se dela. Tomou-lhe as maos.
-Porque vieste? –interrogou.  –Eu nao te chamei.
Longe de se zangar, Javier sorriu e, meigamente replicou:
-Sei tudo, Lola. Falei com mina mae. Porque queres continuar a enganar-me?
Javier rodeou os ombros de sua amada e atraiu-a a si:
-Nao nos separaremos mais –ciciou-lhe Javier. –Como pude duvidar de ti?
Sempre com o rosto de Lola descansando no seu ombro, o joven prosseguiu, agora com maior entusiasmo:
-Vim buscar-te… Iremos os dois para muito longe, onde ninguém nos conheca. Há-de haver um sitio onde possamos ser felizes.
-Sim…  -articulou a moribunda – leva-me contigo para muito longe, para uma Praia cheia de luz…
-Sim… -volveu Javier, fremente de amor –comencaremos uma vida nova… tu e eu, juntos para sempre.
Javier esperou que Lola lhe respondesse.
-Nao me ouves? –perguntou alarmado.
Nao, Lola nao podía ouvi-lo, porque deixara de pertencer ao número dos vivos.
Javier, de posse da verdade, correra para junto de Lola com a esperanca de rencontrar o fio daquele maravilhoso idilio que haviam vivido. Mas a norte opusera-se, calando definitivamente aquele coracao que sempre batera por ele. Lola morrera mas morrera feliz, tendo a seu lado o homem, o único homem a quem amara.

FIM

EL RECORTE XLIX
El 15 de Septiembre de 1962, la revista Hola anunciaba así la película de la que este año estamos celebrando el 50 aniversario: "La Bella Lola".




LA FOTO XLIX

Celebrando los 50 años de la Bella Lola


"Estando yo una mañana, triste y lloroso mirando el mar,
me encontré con una mulata que me mostraba su delantal...."


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